A CPI da Covid-19 ouve, nesta quarta-feira, 4, o tenente-coronel da reserva do Exército Marcelo Blanco. Ex-assessor de Roberto Ferreira Dias no departamento de Logística do Ministério da Saúde, ele testemunhou o suposto pedido de propina de US$ 1 por dose na compra de 400 milhões de doses da AstraZeneca que teria ocorrido em um jantar no dia 25 de fevereiro em um restaurante em Brasília.
Ouvido no dia 1º de julho, o cabo da Polícia Militar de Minas Gerais Luiz Paulo Dominguetti, que se apresentou como representante da Davati Medical Supply, disse que recebeu um pedido de vantagem indevida de Dias, indicado do Centrão para o cargo. No dia 15 de julho, Cristiano Carvalho, outro vendedor da Davati, afirmou que Dominguetti o reportou um pedido de “comissionamento” que seria endereçado ao “grupo do Blanco”.
O coronel chega à comissão amparado por um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a decisão, o depoente pode ficar em silêncio em perguntas que possam incriminá-lo, mas tem a obrigação de falar sobre fatos que testemunhou.
Marcelo Blanco revelou que recebeu uma proposta de um homem identificado como general Severo para trabalhar em “braço” da VTCLog que seria aberta no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Ele assumiria o cargo quando deixasse o Ministério da Saúde – quando foi procurado, no entanto, ele ainda estava no governo federal. “Vantagem indevida”, disse o presidente da CPI da Covid-19, Omar Aziz (PSD-AM).
Tebet também pediu que a comissão apresente novo agravo regimental ao STF. Blanco está amparado por um habeas corpus que lhe deu o direito de permanecer em silêncio em perguntas que o incriminem. No entanto, ele prestou o compromisso de dizer a verdade e está respondendo a todas as perguntas. Para a senadora, é necessário esclarecer se a testemunha, neste caso, pode “sair preso” da CPI da Covid-19.
Líder da bancada feminina, a senadora Simone Tebet (MDB-MS) pediu que a comissão realize uma acareação para apurar “quem mente menos” na CPI da Covid-19. Para a emedebista, só assim será possível “fechar a caixinha” da investigação sobre os intermediadores. “A régua de hoje é a mesma de ontem. Ontem [no depoimento do reverendo Amilton] foi em nome de Deus, hoje é em nome do patriotismo. Nunca em nome próprio. Às custas da dor e das perdas, estavam todos interessados em outra coisa: comercializar com o governo contratos privados ou públicos para compra de vacinas superfaturadas”, disse Tebet.
O coronel Marcelo Blanco negou que tenha havido pedido de propina no restaurante Vasto, em Brasília, no dia 25 de fevereiro. Assim como Roberto Ferreira Dias, que saiu preso da CPI da Covid-19, o ex-servidor da Saúde diz que Luiz Paulo Dominguetti mentiu. De acordo com a versão de Blanco, eles não jantaram, pediram apenas uma entrada. No encontro, Dominguetti teria pedido apenas uma agenda no Ministério da Saúde. “Por que Dominguetti teria inventado um caso como este?”, questionou Renan Calheiros. “É o que todo mundo se pergunta”, rebateu Blanco.
Os advogados que acompanham Marcelo Blanco apresentaram supostas mensagens trocadas entre o coronel e Cristiano Carvalho, que se apresentou como vendedor da Davati no Brasil. No entanto, a CPI da Covid-19 alega que a defesa do depoente manipulou provas apresentadas à comissão.
Segundo Omar Aziz (PSD-AM), presidente do colegiado, as conversas estão editadas. A íntegra das mensagens foram fornecidas voluntariamente por Cristiano. Para os senadores, Blanco apresentou conteúdo que lhe interessa. “Estou afirmando que está faltando parte das conversas que ele teve com o Cristiano”, disse Aziz. “Isso demonstra que ele mentiu”, acrescentou.
Marcelo Blanco é confrontado sobre sua relação com servidores do Ministério da Saúde e a intermediação feita com supostos vendedores, como Luiz Paulo Dominguetti. Há pouco, o presidente da CPI da Covid-19, Omar Aziz (PSD-AM), citou o fato de Blanco ter sido exonerado em janeiro deste ano, mas continuou na pasta. Em junho, há uma portaria assinada pelo número dois de Pazuello, Elcio Franco Filho, dispensando o depoente e nomeando um diretor substituto para o departamento de Logística.
Marcelo Blanco afirmou há pouco que sabia que Roberto Ferreira Dias, então diretor de Logística do Ministério da Saúde, estaria no restaurante Vasto, em Brasília, no dia 25 de fevereiro, e não viu “mal algum” em apresentar Luiz Paulo Dominguetti a Dias, mesmo sem avisá-lo. Vale destacar que o suposto pedido de propina teria ocorrido neste encontro.
Nas mensagens mostradas, coronel Blanco e Dominguetti discutem supostamente sobre a venda de vacinas para o setor privado no início de fevereiro. O vice-presidente da CPI da Covid-19, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), pediu a palavra para esclarecer que a primeira reunião para discutir o projeto de lei ocorreu no dia 18 de fevereiro.
O PL foi aprovado no dia 23 de fevereiro e sancionado em 11 de março. Ou seja: a possibilidade de compra de vacinas por entes privados ocorreu depois das conversas exibidas. O presidente, Omar Aziz (PSD-AM), disse que Blanco poderia ter informações privilegiadas, uma vez que as leis ainda não existiam.
Marcelo Blanco afirmou que foi procurado pelo cabo da PM de Minas Gerais Luiz Paulo Dominguetti no início de fevereiro. Ele mostra mensagens trocadas pelo WhatsApp com o suposto vendedor da Davati Medical Supply. Segundo o depoente, no início, tratavam sobre a venda de vacinas para o setor privado – à época, havia um projeto de lei tramitando na Câmara dos Deputados. O ex-assessor do Ministério da Saúde admitiu que não procurou informações sobre a idoneidade da Davati.
Fonte – Jovem Pan
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